UMA HISTÓRIA QUE ATRAVESSA GERAÇÕES
Em novembro de 1889, a queda do Império abriu um longo capítulo de reorganização para os monarquistas brasileiros. A Coroa deixava o governo, mas sua defesa continuaria nas páginas dos jornais, na correspondência do exílio, nas associações e nos livros. Desde então, diferentes gerações procuraram preservar uma memória e formular uma proposta política para o país. Essa história reúne instituições duradouras, iniciativas breves, divergências e reencontros: uma tradição que encontrou muitas maneiras de permanecer.
Nos primeiros anos republicanos, o Visconde de Ouro Preto, João Alfredo, Joaquim Nabuco e Eduardo Prado figuraram entre os protagonistas dessa reorganização. O Partido Monarquista de São Paulo, constituído em 1895, o Diretório Monarquista do Rio de Janeiro e o Centro dos Estudantes Monarquistas de São Paulo deram expressão política, intelectual e estudantil à causa. O manifesto À Nação Brasileira, publicado em janeiro de 1896, pertence a esse esforço de apresentar ao Brasil as razões dos defensores da monarquia.
No início do século XX, D. Luís de Orléans e Bragança procurou renovar esse horizonte. Seus manifestos de 1909 e 1913 discutiram os caminhos da organização nacional diante de uma sociedade em transformação. Em 1928, o Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria Nova, liderado por Arlindo Veiga dos Santos, inaugurou a trajetória que daria origem à Ação Imperial Patrianovista Brasileira. Com orientação corporativa e antiliberal, o patrianovismo constituiu uma vertente própria, que precisa ser compreendida em seu contexto. A memória do movimento registra também a Ação Monarquista Brasileira e a militância de Sebastião Pagano.
Outras iniciativas atravessaram as décadas seguintes. A União Nacional dos Universitários Monarquistas, organizada por Otto de Alencar Sá Pereira, levou a discussão ao ambiente estudantil. Mais tarde, o Instituto Brasileiro de Estudos Monárquicos — IBEM, ao qual Fernando Baptista Bolzoni se vinculou desde jovem, e o Instituto Brasileiro de Pesquisas Monárquicas — IBRAPEM contribuíram para os estudos e para a articulação de diferentes posições monarquistas. Debatiam-se a sucessão dinástica, a organização do Estado e as possibilidades de apresentar essas ideias à sociedade.
A redemocratização ampliou esse espaço. O Movimento Parlamentarista Monárquico, articulado por Cunha Bueno, participou da mobilização que desembocou no plebiscito de 21 de abril de 1993. O Círculo Monárquico do Rio de Janeiro e a Pró Monarquia também passaram a integrar esse cenário de participação pública. Mais de seis milhões de brasileiros escolheram a monarquia naquela consulta. A República e o presidencialismo venceram; aos monarquistas coube reconhecer a decisão popular e continuar defendendo suas convicções pelos caminhos do debate democrático.
Após o plebiscito em 1993, o Instituto Brasil Imperial reuniu participantes de diferentes grupos e preservou espaços de convivência, divulgação e produção cultural. A Confederação Monárquica do Brasil — CONFEMBRAS, a Causa Imperial, o Círculo Monárquico do Brasil e Círculos Monárquicos locais, como os do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Alagoas, compõem outros capítulos dessa trajetória. São organizações com percursos, dimensões e orientações próprios, cuja história merece ser registrada sem apagar suas diferenças ou presumir uma direção única.
É nesse percurso que se insere a atuação contemporânea de Carlos Egert, escritor, autor de dois livros sobre a temática monárquica (O Guia do Monarquista vol.1 e Terceiro Reinado pela editora Filos) e presidente do Diretório Monárquico do Brasil. Seu trabalho de reorganização do Diretório se soma às iniciativas de gerações anteriores. Ao lado do Ativismo Monarquista Brasileiro, de círculos de diversas cidades, de grupos independentes e de outros autores, essa atuação procura aproximar a produção intelectual da participação cívica.
O movimento monarquista se mantém firme e retorna para dar espaço a essa pluralidade. Queremos preservar documentos, apresentar livros, ouvir pesquisadores, divulgar encontros e tornar conhecidas as pessoas que trabalham pela causa em suas comunidades. Este é um registro aberto: cada grupo poderá acrescentar sua trajetória, seus acervos e suas contribuições, ajudando a construir uma memória mais completa do movimento brasileiro.
Defender a monarquia constitucional parlamentar no presente exige conhecer essa herança e responder às perguntas do nosso tempo: como limitar o poder, assegurar a representação popular, proteger direitos e organizar governos responsáveis perante o Parlamento. É a esse trabalho de estudo, diálogo e participação que convidamos nossos leitores.
Uma causa atravessa o tempo quando cada geração recebe a memória com cuidado e acrescenta a ela o próprio trabalho.
Para apresentar seu círculo, divulgar uma obra, compartilhar documentos ou conhecer formas de participação: